A Greve na Rede

Certamente outras análises podem ser feitas sobre o período de greve que a Universidade de São Paulo (USP) acabou de atravessar, do ponto de vista das ciências sociais e políticas, por exemplo, mas quero registrar neste artigo minha percepção do ponto de vista tecnológico sobre esta primeira greve pós-Internet na USP.

As duas greves mais importantes dos últimos vinte e cinco anos na USP, com alto grau de adesão de docentes e funcionários, ocorreram no fim da década de 70, no governo Maluf, e no fim da década de 80, durante o governo Quercia. Havia muitas assembléias e discussões, protestos no Palácio do Governo, moções das congregações, etc. mas pouca negociação de fato e pouca informação para os grevistas. Além do foco da ação ter mudado do Governador do Estado para o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (CRUESP), a greve de 2000 incorporou um elemento novo, que talvez tenha passado despercebido para muitos: o uso da rede de computadores, que desde 1996 une praticamente todos os docentes, servidores e alunos da USP, num total de aproximadamente dezesseis mil pontos de conexão.

Quando a atual Internet foi desenvolvida no início da década de setenta como um projeto militar do governo norte-americano, com o nome de ARPANet, um dos principais objetivos definidos foi que a rede permitisse a comunicação por meio de um número muito grande de pontos de roteamento, de tal forma que mesmo se muitos deles deixassem de funcionar a comunicação ainda poderia ser feita por outros caminhos alternativos. Os roteadores, a transmissão por meio de pacotes, o Protocolo da Internet (IP) e grande parte da tecnologia de redes que conhecemos hoje foi desenvolvida com base nesse requisito. Julgo interessante refletir como essa tecnologia foi usada pelos atores principais desta greve e como atingiu a toda a comunidade universitária. O que vimos e vivenciamos foi um teste real do que os militares norte-americanos previram há trinta anos.

Durante todo o transcorrer da greve, e mesmo antes do seu início, as associações de classe usaram ativamente seus sites na Web e o correio eletrônico para veicular mensagens diversas, convocar reuniões e divulgar o resultado de assembléias e reuniões com o CRUESP. Pela primeira vez pudemos ter uma boa noção do que ocorria na Universidade de Campinas e na Universidade Estadual Paulista consultando os sites na Web das suas associações e das suas reitorias. Os nossos colegas das duas universidades paulistas fizeram o mesmo com relação aos nossos sites. O correio eletrônico foi também bastante usado para divulgar notícias, dar versões dos fatos ocorridos e convocar reuniões, atingindo quase que instantaneamente boa parte da comunidade acadêmica. Representantes de diversas categorias usaram mensagens eletrônicas para divulgar os resultados das assembléias de suas unidades e seus campi, atingindo rapidamente a seus representados.

É voz corrente que toda a tecnologia da Internet é dominada muito mais pelos jovens do que pelos mais velhos. É interessante notar que nesta greve de 2000 isso não ocorreu justamente no segmento que, em princípio, mais teria condições de usar a tecnologia. Os alunos de graduação se envolveram na greve apoiando os professores e funcionários e acrescentaram reivindicações próprias, como a contratação de mais docentes, mas não usaram a rede (os serviços de correio eletrônico e a Web) para se comunicar com as demais categorias e com isso muito poucos da comunidade acadêmica e da comunidade externa ficaram sabendo quais eram suas posições e reivindicações.

Acredito que o evento mais importante a deflagrar o uso intensivo da rede e ilustrar seu papel estratégico foram os piquetes coercitivos empreendidos pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) nos prédios atual e antigo da reitoria. O objetivo parece ter sido muito claro: no primeiro impedir a administração da USP de usar o jornal, a rádio e a TV para se comunicar com a comunidade universitária e no segundo, além de isolar o Reitor, impedir que funcionassem as atividades essenciais das áreas financeira, de recursos humanos, jurídica, etc., praticamente parando a Universidade.

A Rádio e a TV passaram a funcionar de maneira precária em instalações fora da cidade universitária e a Coordenadoria de Comunicação Social (CCS) passou a editar um boletim com notícias da greve, preparado e impresso fora de suas instalações no prédio antigo da reitoria. O site da USP na Internet, o USPOnline, deixou de ser alimentado diariamente por informações da universidade, mas continuou funcionando para o público externo e foi usado pela administração para veicular notícias sobre a greve e para postar os boletins da CCS, acabando por tornar-se um importante veículo de informações para toda a comunidade uspiana, a partir da chamada "USP Na Greve" em sua página inicial. Isso foi possível porque o servidor do USPOnline não fica instalado fisicamente na CCS e pode ser acessado e atualizado, em princípio, de qualquer ponto da rede, inclusive externamente à USP. Se o computador que hospeda esse site fosse desligado por grevistas, teria sido relativamente fácil ter preparado outro servidor em qualquer ponto da USP ou fora dela.

O uso dos sistemas de informação institucionais - JÚPITER, FÊNIX, MERCÚRIO, etc. - também foi ameaçado pelos piquetes, mas uma solução foi improvisada para minimizar os problemas. Os funcionários da reitoria que foram impedidos de trabalhar pelo piquete espalharam-se por diversos prédios do campus e continuaram a executar os serviços essenciais da Universidade. Com isso, foi possível rodar precariamente a folha de pagamentos, fazer pagamento de fornecedores e permitir que as unidades que não estavam em greve continuassem a funcionar, usando os sistemas acadêmicos e financeiros. Em outros tempos, com os sistemas executando no computador mainframe e não tendo uma arquitetura cliente-servidor como a atual e sem o uso da rede, teria sido muito mais difícil continuar a operá-los com os funcionários fora da reitoria.

O correio eletrônico, por outro lado, teve um outro papel muito importante. A ADUSP o utilizou muito bem para divulgar seus números, projeções e comentários sobre o orçamento. Isso levou a um debate amplo sobre o orçamento da USP, nunca anteriormente ocorrido. Mas a reitoria, sitiada pelos piquetes, também utilizou intensamente essa tecnologia. Dispondo de poucos e abnegados auxiliares, o Reitor conseguiu marcar reuniões com diretores, divulgar os estudos da COP, fazer com muita rapidez com que moções dos diretores conseguissem as adesões necessárias e fossem divulgadas a toda a comunidade, etc. Já no fim da greve esse uso se tornou mais intenso para rebater quase que instantaneamente as versões controversas circuladas pelo SINTUSP e pela ADUSP sobre as iniciativas de entendimento da comissão de notáveis, sobre o episódio do cárcere privado, sobre o bloqueio das entradas da USP no dia oito de junho, etc. Sem o correio eletrônico isso seria praticamente impossível nas condições de trabalho do gabinete do Reitor.

Ante o exposto acima, fica evidente que um ponto chave para a paralisação da Universidade seria paralisar o Centro de Computação Eletrônica (CCE), onde estão instalados e são executados todos os computadores que fazem funcionar os sistemas institucionais e a rede. Por duas vezes o SINTUSP realizou assembléias em frente ao CCE mas os seus funcionários por livre decisão da maioria, decidiram não aderir à greve. No período mais tenso da greve, surgiram boatos de que o CCE seria invadido, mas isso acabou não acontecendo. A continuidade das atividades do CCE é fundamental para a continuação das atividades da USP, mas sua eventual paralisação por movimento grevista, além dos prejuízos materiais causados, pode ter conseqüências imprevisíveis.

Se isso ocorresse seria impossível manter uma greve como todas as anteriores, em que algumas atividades são paralisadas, como as aulas na graduação, e as demais atividades, como as de pesquisa, continuam normalmente. Nessa situação todos perderiam bastante: alunos, docentes, funcionários, associações de classe e, sobretudo, a Instituição. Não haveria como comunicar-se pela rede com colaboradores no país e no exterior, submeter trabalhos, obter os formulários das agências de fomento, etc. ( o que causaria enormes prejuízos às pesquisas), como fazer qualquer tipo de pagamento a fornecedores, a funcionários e a alunos bolsistas, como ter acesso à Web internamente à universidade, como fazer andar qualquer processo (o que paralisaria concursos e processos seletivos, por exemplo), como registrar as teses e dissertações defendidas, etc. Um período muito prolongado nessa situação causaria prejuízos irreparáveis, incomodaria muito à grande maioria de funcionários docentes e não docentes que costumeiramente não participa ativamente da greve, as próprias associações de classe teriam muito mais dificuldades de se comunicar com seus associados etc.

Concluindo, nesta greve da era da tecnologia da informação, parece-me que no segmento dos docentes as assembléias perderam um pouco de sua importância e a disputa travou-se muito mais no domínio da divulgação de informações por meio de todos os recursos disponíveis: jornais, correio eletrônico e Web. De um modo geral os docentes e funcionários receberam uma quantidade muito maior de informações, tanto da reitoria quando dos sindicatos docentes. O mesmo não ocorreu com os setores não docentes e discentes. Mas o potencial da tecnologia da informação não foi explorado em sua totalidade e novos avanços continuam a surgir a todo instante. Enumero a seguir algumas iniciativas relativamente simples que a tecnologia atual permite e que poderiam ter impacto muito grande no comportamento de todos:

 

 

Paulo C. Masiero

16/10/00

grevenarede