SISTEMAS DE INFORMAÇÃO OU ANÁLISE DE SISTEMAS?

Introdução

A comissão de especialistas da área de computação definiu recentemente que os cursos de computação como atividade-meio passam a chamar-se Sistemas de Informação, ao invés do nome Análise de Sistemas usando anteriormente. Muitas instituições de ensino, por intermédio de seus coordenadores de curso, estão reclamando dessa alteração. Alguns preferem a denominação anterior e outros preferem a denominação de Informática. Neste ensaio procuro apresentar as razões para optar por um nome ou por outro e justifico minha preferência pela nova denominação. Aproveito também a oportunidade para iniciar outras discussões.

Um nome é só um nome

A atribuição de nomes a seres e coisas não é um processo racional e, muitas vezes, está mais preso à tradição e à origem do que ao significado da palavra usada para dar o nome, depende da tradição e é muito difícil alterar um nome em uso. Exemplos não faltam: o Brasil deve seu nome a uma árvore que hoje é muito pouco conhecida e a cidade do Rio de Janeiro assim se chama porque foi fundada no mês de janeiro e seu fundador pensou que estava à beira da foz de um grande rio; nesse mesmo Brasil muitos Brunos são loiros e todos com mais de quarenta se lembram que a Clara Nunes era uma linda cantora morena; Millôr era para ser Milton e meu Cesar não tem acento porque o dono do cartório de Itajobi,SP, desconhecia essa regra de acentuação.

É difícil encontrar uma regra recorrente e racional para determinar o relacionamento entre os nomes de cursos, o título conferido pelo curso e a profissão a ser exercida. Só tenho certeza de uma: o relacionamento entre cursos e profissões é "muitos para muitos". O curso de odontologia forma bacharéis em odontologia para exercer a profissão de cirurgião dentista. O curso de direito forma bacharéis em direito para serem advogados, juizes, procuradores, etc. Na área de computação a profissão mais comum, aquela que aparece na carteira de trabalho, é a de Analista de Sistemas; como não é uma profissão regulamentada pode ser exercida por matemáticos, engenheiros, físicos e outros, além dos formados nos diversos cursos da área de computação.

Na maioria das profissões há também especializações que não se confundem com a profissão principal. A cardiologia, por exemplo, é uma especialidade da medicina e não aparece como profissão em nenhuma carteira de trabalho; que será sempre a de médico. Nas engenharias isso muda um pouco, pois a especialidade aparece no título dos cursos e das profissões: há o engenheiro civil e o engenheiro eletricista, por exemplo.

A história relativamente recente da área de computação e sua enorme evolução desde que surgiu são uma boa explicação para o nosso estado de confusão e provavelmente outras mudanças virão até que se chegue a uma denominação estável. Tradicionalmente, os cursos da área de computação enfocam o software e os de engenharia eletrônica o hardware. Mais recentemente os cursos de engenharia de computação, conforme seu perfil, enfocam integradamente o hardware e o software. Neste texto refiro-me exclusivamente aos cursos com ênfase no software.

Sistemas de Informação, Informática e Ciências da Computação

O desenvolvimento do software tem um processo genérico que se divide em fases. Grosso modo temos: análise do sistema, projeto, desenvolvimento e implantação. Até a década de 70 o desenvolvimento era de responsabilidade dos programadores e a análise e projeto, considerados mais nobres e como profissões de nível superior, era de responsabilidade do analista de sistemas. Desde o início da década de 80 essa distinção diminuiu e muitos analistas de sistemas são responsáveis por todas as fases do processo. Estamos portanto em uma situação em que o nome da profissão, "Analista de Sistemas", deriva apenas de uma das fases do processo de desenvolvimento de software, que é importante mas não mais que as demais e o nome do curso, Análise de Sistemas, reflete a profissão de um modo limitado. Digo que esses nomes são baseados no processo.

O processo de desenvolvimento tem o objetivo de levar à produção de um produto, que é um sistema baseado em computadores. Um sistema de informação é um tipo bem definido de sistema: possui uma base de dados geralmente volumosa, tem alto volume de entradas e saídas, processamento relativamente simples e apóia a execução de atividades administrativas das empresas. Portanto, um curso denominado de "Sistemas de Informação" está focado no produto e passa o significado que está formando um profissional preparado para desenvolver esse tipo de sistema. Diz mais: esse profissional não está preparado para desenvolver qualquer tipo de sistema, como os software básicos e os sistemas de tempo real, que exigem outros requisitos e outra formação. Information Systems é o nome usado nos Estados Unidos para esse curso, que tem um pouco mais de enfoque em administração de empresas do que em tecnologia, quando comparado com os currículos brasileiros.

Há aqueles que preferem que o curso dirigido para a atividade-meio seja chamado de Informática. Na Europa, de um modo geral, usa-se o termo "Informatics" (e suas traduções em cada idioma europeu) para a área e para muitos departamentos acadêmicos.. Para os entusiastas desse nome é interessante lembrar que em francês computador é denominado ordinateur: mais um exemplo de como os nomes não resistem a uma análise entre o significado e a descrição ou identificação da coisa nomeada.

Nos Estados usa-se Computer Science, que deu origem aos cursos que aqui no Brasil são chamados de Ciências de Computação. Seriam portanto, ciências da computação e informática, sinônimos da atividade-fim. Nos Estados Unidos alguns departamentos universitários usam o nome "Computing" para evitar dar ao nome do campo o mesmo nome da máquina, mas predomina como nome de departamento acadêmico o de Computer Science. Atribui-se a Dijkstra a afirmação de que usar Computer Science como nome seria o mesmo que chamar cirurgia de Knife Science.

Independentemente da discussão acadêmica, os termos "computação" e "informática" já coexistem como sinônimos na linguagem popular, dada a proliferação e popularização dos microcomputadores e dos cursos livres. Isso por si só é incômodo, mas teremos que conviver com o problema até que um dia um dos termos caia em desuso. A presença do computador em nossas vidas tornou muito importante integrá-los em todas as áreas do conhecimento, em todos os níveis. Isso gera a necessidade de uma alfabetização em computação, que muitos confundem com ciência de computação: saber usar um processador de texto ou uma planilha eletrônica não é o mesmo que saber algoritmos, estruturas de dados e programação.

 

Qual é a profissão de quem se forma em um curso da área-fim e de quem se forma em curso da área-meio ?

É também sintomático em nosso campo que, embora tenhamos dois perfis bastante distintos de profissionais formados nos cursos da atividade-fim e da atividade-meio, eles nãos sejam diferenciados profissionalmente no nome da profissão, que invariavelmente é a de "Analista de Sistemas". Esse parece ser um nome limitado, como discutimos acima, mas é o nome do mercado. Para os formados nos cursos de Sistemas de Informação há uma aparente incoerência: o curso tem nome focado no produto e a profissão tem nome focado no processo.

. Está fora das atribuições e do controle da comissão de especialistas do MEC produzir qualquer alteração nos nomes do mercado de trabalho. Além disso é muito difícil mudar qualquer nome já consagrado. (Os políticos já aprenderam isso e incorporam o apelido ao nome. Vide o Lula e tantos outros !).

Qual seria a profissão do bacharel em Informática, se admitíssemos esse curso como atividade-meio? Vem á mente as palavras "Informata" e "Informateiro", usando as regras de formação de nomes de profissão em português. Escolho a primeira, que soa melhor. É um termo muito mais genérico do que o significado que queremos dar, pois o profissional formado não é um especialista em informação em geral, mas sim no processamento automatizado da informação, ou melhor, dos dados que produzem a informação. Mas penso que não seria problema muito grande ter um nome genérico com um significado técnico restrito, pois isso acontece em muitos outros casos. Esse nome de profissão seria também aceitável para o profissional formado em Sistemas de Informação ? Acho que sim e valeriam as mesmas observações anteriores.

Engenheiro de software seria uma outra possibilidade, mas no Brasil essa denominação profissional só poderia ser dada a um profissional formado em um curso de Engenharia. Um termo muito usado atualmente, Tecnologia da Informação, poderia ser base para a denominação da profissão, mas há também dificuldade no Brasil com esse nome, porque os termos "tecnologia" e "tecnólogo" já têm um significado bem definido na terminologia do MEC, relacionado a cursos de curta duração.

Conclusão

Pelas razões expostas, considerando que a maior influência cultural atual na língua portuguesa vem da língua inglesa e considerando ainda toda a dominação tecnológica norte-americana na área de computação, minha posição é que a denominação de Sistemas de Informação é a melhor no momento. Acho que o receio de que o nome não tem apelo "mercadológico" não tem fundamento: o nome se firmará tão logo as primeiras turmas comecem a se formar e, concomitantemente, comece a diminuir a quantidade de cursos denominados de Análise de Sistemas. Como qualquer mudança de nome leva tempo para predominar, muitas uma geração, é preciso paciência e divulgação.

Quanto à denominação da profissão, não tenho uma posição concreta, acho que vai continuar sendo Analista de Sistemas, mesmo porque é o termo usado nos Estados Unidos e em outros países da América do Sul. Isso facilita num mercado de trabalho globalizado. Talvez devessemos investir no uso do termo "Engenheiro de Software" para os profissionais da área-fim. Outra possibilidade seria a SBC e as associações de classe pensarem numa denominação genérica que admitisse algumas especialidades, como ocorre em outras profissões. Dentro dessa perspectiva talvez "Informata" seja um bom candidato.

Paulo C. Masiero

Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação,

Universidade de São Paulo.

1/8/99 - nomesist